Este roteiro cobre a parte técnica, que costuma ficar com o pesquisador. A forma final do documento, a modalidade de compra e as exigências aos fornecedores são definidas pelo setor de compras, pela fundação de apoio ou pela procuradoria da instituição.
Base legal, em uma linha cada
- Órgãos e entidades sujeitos à Lei 14.133/2021. O art. 6º, inciso XXIII, define o termo de referência e lista o que ele deve conter, da definição do objeto à adequação orçamentária.
- Fundações de apoio. Nas compras enquadradas no Decreto 8.241/2014, ligadas a projetos de ensino, pesquisa, extensão e inovação de universidades e instituições de ciência e tecnologia, vale o regulamento de aquisições previsto nesse decreto.
Nos dois casos, o conteúdo técnico sai do projeto de pesquisa. É ali que a compra acerta ou erra.
O erro mais caro: especificar só as peças
Um termo que pede apenas "N servidores com X núcleos e Y GB de memória" deixa de fora o que faz um cluster funcionar. Ficam sem descrição a rede entre os nós, o armazenamento compartilhado, o software configurado e o desempenho do conjunto.
A proposta mais barata que cumpre a lista vence, e o grupo descobre o que faltou depois da entrega. A saída é descrever também o resultado esperado e amarrar o aceite a ele.
Cada exigência precisa de justificativa técnica e de proporção com o projeto. O procedimento de medição tem de ser reproduzível e estar disponível a todos os concorrentes. Uma topologia ou um benchmark que só um fornecedor consegue cumprir também direciona a compra, mesmo sem citar marca.
Roteiro comentado
1. Objeto
Descreva uma "solução de computação de alto desempenho (cluster) instalada, configurada e testada". Assim o objeto inclui rede, armazenamento, software de gerência, instalação, testes de aceite, treinamento e garantia.
2. Justificativa
Ligue a compra ao projeto aprovado: códigos usados, tamanho dos problemas, número de pesquisadores e o limite do equipamento atual. Uma medição do código no equipamento atual dá força à justificativa.
3. Nós de computação
Núcleos e memória por nó a partir da carga, com a memória por núcleo explícita. Peça todos os canais de memória ocupados: canal vazio reduz a banda e passa despercebido numa lista simples.
4. Rede
Separe a rede de comunicação entre nós da rede de gerência. Para a primeira, descreva latência, banda mínima e topologia, sem exigir marca. O guia de rede ajuda a decidir o que pedir.
5. Armazenamento
Peça capacidade útil, já descontada a redundância, desempenho de leitura e escrita medido com um teste definido e a política de cópia de segurança.
6. Software
Liste o sistema operacional, o gerenciador de filas, compiladores, MPI, bibliotecas numéricas e os códigos do grupo que devem chegar instalados e testados. Indique quais licenças a instituição fornece.
7. Critério de aceite
É o ponto central. Descreva o caso de teste do código, a meta de desempenho, a conferência do resultado, os testes padrão (HPL, STREAM, OSU e IOR) e o que acontece se a meta não for atingida. O guia de aceite por benchmark detalha cada item.
8. Local de instalação
Informe a potência elétrica disponível, a refrigeração, o no-break e o espaço em rack. Se a sala não comporta o cluster, a compra precisa prever a adequação ou a hospedagem em data center.
9. Garantia e suporte
Defina o prazo de garantia, o tempo de atendimento, a troca de peças no local e quem cuida do software depois da entrega. Garantia só de hardware deixa o grupo sem ajuda no primeiro problema de fila ou de biblioteca.
10. Treinamento e documentação
Treinamento para usuários e para quem administra, com documentação em português: como enviar tarefas, onde gravar dados e como pedir ajuda.
Anexos que ajudam
- Caso de teste do código, com instruções de execução.
- Resultado da medição no equipamento atual.
- Planta ou fotos da sala, com o quadro elétrico e a refrigeração.
- Orçamentos de referência de mais de um fornecedor, quando a instituição pedir.
Quando a instituição pede, fornecemos informações técnicas e orçamento de referência. A redação do termo e a condução da compra ficam com ela.
Perguntas frequentes
Posso exigir uma marca no termo de referência?
Em regra, a especificação deve descrever desempenho e características, sem direcionar marca. A indicação de marca é exceção e precisa de justificativa técnica. Confirme com o setor de compras ou a procuradoria da instituição.
Quem escreve o termo de referência?
A instituição, em geral o pesquisador responsável junto com o setor de compras ou a fundação de apoio. Fornecedores podem enviar informações técnicas e orçamentos de referência; a redação do termo e a condução da compra ficam com a instituição.